Breve momento de pausa para quebrar a rotina...

Autoria de textos e imagens do blog é de momento do café


20
Dez 13

Manhã cedo, olhar o sapatinho obrigava a criançada e os mais jovens a correrem para cozinha e, sem receio, as prendas eram desembrulhadas apressadamente. Quantas vezes, já tinham sido descobertas! Bem escondidas num dos guarda-fatos, julgava a mãe! Se desconfiava, nada dizia. Havia aquela certeza de que ela sabia, mas não quebrava a cumplicidade dos filhos. Por isso, na hora de abrir as prendas, a alegria espontânea do Natal prevalecia e percorria a casa. Era uma alegria tão especial que só o Natal confere às crianças e que se guarda para toda a vida.

No dia de Natal, à sombra fresca da mandioqueira, comia-se na mesa grande do quintal porque o calor apertava à hora do almoço. Uns anos, criava-se um peru que tomava uma grande bebedeira e acabava gostosamente recheado à mesa. Outros anos, havia cabrito que a comadre Formidável criava na sua casa da Samba. Claro que era cabrito assado no forno de barro, se o animal, entretanto, não tivesse sido devolvido à procedência pela braveza que resultava do toureio que o mano J. resolvia pôr em prática.

Os natais desse tempo deixaram as marcas da alegria, da simplicidade e da despreocupação. Hoje está desvirtuado pelo mercantilismo que o contagia e, mesmo que não se concorde com o modo de ser e viver o Natal, acaba-se por embarcar nas armadilhas do marketing que está muito bem apontado para o alvo que melhor responde às campanhas publicitárias e que tão bem amolece a vontade dos mais crescidos: as crianças. E é por elas que, muitas vezes, os mais velhos se encantam com a época natalícia que logo se faz anunciar pelos centros comerciais, no princípio de cada novembro do calendário e, sem que se queira, é incontornável a recordação de tantos natais da infância em África, onde tudo era descomplicado e o tempo, simplesmente, corria.

 

in "Natal no tempo dos trópicos" (revisto)

publicado por momento do café às 09:50

19
Dez 13

Na véspera de Natal, o aroma da canela espalhava-se pela casa. Era um dia de azáfama para a mãe que fazia os doces tradicionais e não faltavam as rabanadas, os coscorões, a aletria, o pão-de-ló e os mexidos ou formigos como são conhecidos no Minho. E eram à rico, como dizia um camarada do pai, o Sr. Monteiro, porque, para além do mel e do vinho do Porto, levavam amêndoas, nozes, pinhões, avelãs e passas de uva.

O jantar da consoada era servido numa mesa muitíssimo comprida na sala de jantar contígua à cozinha porque a família era grande, com seis filhos, e o pai e a mãe não a achavam suficientemente numerosa para a celebração da festa de Natal.  Havia sempre convidados! Eram os amigos que passavam a quadra natalícia longe dos entes queridos e, então, os pais faziam questão de as convidar para a consoada. À mesa, havia o tradicional bacalhau cozido com todos e em grande quantidade porque o que sobrasse seria para a “roupa velha” do almoço de Natal. À sobremesa, provavam-se, então, todos os doces tradicionais que a mãe confecionara com o carinho e a serenidade que lhe eram tão naturais. Depois, na varanda frente ao mar, com muita conversa e jogos tradicionais, a reunião da família e dos amigos continuava e estendia-se até à hora do nascimento do Menino Jesus.

À meia-noite, era o momento de toda a família colocar o sapatinho na chaminé da cozinha. Não se esperava pelo Pai Natal, mas pelo Menino Jesus que acabava de "nascer" no presépio lá de casa. E, enquanto os mais velhos seguiam para a missa do galo, os mais novos íam dormir. Era a hora em que a algazarra serenava e a casa ia mergulhando na magia silenciosa da noite de Natal.

  in "Natal no tempo dos trópicos" (revisto)

publicado por momento do café às 18:00

18
Dez 13

Na varanda virada ao mar, o presépio ficava montado numa caixa grande de madeira cheia de areia da praia e apoiada em quatro pernas. Sobre a areia fina, era construída a cabana tosca com uma pequena lâmpada elétrica, bem disfarçada, que realçava as principais figuras do presépio: o Menino Jesus, a Virgem Maria e o S. José. Não havia um burrinho, mas não faltava a vaquinha que aqueceria o Menino Deus que seria deitado nas palhinhas da minúscula manjedoura. Um espelho ladeado de conchinhas do mar imitava o lago onde um lindo cisne branco nadava. Na areia fina e dourada, marcavam-se, também, os caminhos com pequenos burgaus por onde os pastores seguiam com os rebanhos, como se caminhassem na direção da cabana. Com a supervisão do mano "Mocho" que olhava todos os pormenores, a montagem do presépio, logo no início das férias escolares, era uma autêntica alegria e seguia a cronologia dos factos, segundo a tradição. À meia-noite do dia 24 de dezembro, o Menino era colocado nas palhinhas e, mais tarde, na Epifania, os reis magos, Belchior, Baltasar e Gaspar, chegavam à entrada da cabana. Afinal, partiam de tão longe, vinham de leste e seguiam o brilho da estrela maior que, colada lá no alto do céu de papel de seda azul-breu e bem cravejado de outras estrelinhas douradas, estendia os raios sobre a cabana, onde dois anjinhos rochunchudos com uma faixa com as palavras Glória in excelcis Deo, em letra bem caligrafada pela mão do mano mais velho, convidavam à adoração do Menino Jesus. Nesse tempo, não havia árvore de Natal, nem o consumismo à conta do Pai Natal, o ícone natalino dos tempos que correm.

Éramos felizes.

excerto in "Natal no tempo dos trópicos" (revisto)

P.S.: "Natal doutro tempo" é dedicado ao meu neto Tiago de 8 anos.

publicado por momento do café às 17:05

27
Dez 09

Bom era o tempo do Natal passado em África. Preferível ao Natal coberto por um leve e belo manto de neve. O frio atrofia a alegria do Natal. O  quentinho da lareira não consegue superar o calor do Natal no tempo dos trópicos. Não havia árvore de Natal, nem o consumismo a que nos devotamos à conta do Pai Natal. Na varanda que acompanhava toda a frente da casa, com escadas de acesso ao jardim e bem virada ao mar, armava-se um grande presépio numa caixa de madeira cheia de areia da praia e, sobre esta, uma cabana com iluminação que fazia sobressair as principais figuras do presépio. Seguia-se todo o guião cronológico da história do Natal. Só à meia-noite do dia 24, hora do nascimento, era colocado o Menino Jesus nas palhinhas e no dia de Reis, os três Reis Magos, que já faziam parte do cenário, eram deslocados para a entrada da cabana. Não faltavam a estrela brilhante a guiar-lhes o caminho e os anjinhos com o dizer, Glória in excelcis Deo, em letra bem caligrafada pelo mano mais velho. A construção do presépio era um entusiasmo para todos nós, com a supervisão do meu irmão F. que olhava a todos os pormenores.

Na véspera de Natal, o aroma a canela espalhava-se pela casa. Era um dia de azáfama para a minha mãe que fazia os doces tradicionais e não faltavam as rabanadas, os coscorões, a aletria, o pão-de-ló e os mexidos (formigos como são conhecidos no Minho) e eram à rico, como dizia um camarada do meu pai, o Sr. Monteiro, porque além do mel e do vinho do Porto, levavam amêndoas, nozes, pinhões, avelãs e passas de uva. O jantar da Consoada era servido numa mesa muitíssimo comprida, na sala das traseiras da casa e contígua à cozinha, porque a minha família (pais e seis filhos) era grande. Mas não o suficiente para a celebração da festa de Natal. Havia sempre convidados, pessoas longe da família e que os meus pais faziam questão de convidar para connosco passarem a noite de Natal. Na noite da Consoada, comia-se o tradicional bacalhau cozido com todos, cozinhado em grande quantidade porque o que sobrava era para fazer a “roupa-velha” que se comia no início do almoço do dia da Natal. À sobremesa, provavam-se, então,  todos os doces tradicionais. 

Era à meia-noite que colocávamos o sapatinho junto ao fogão que ficava sob a chaminé da cozinha. A ânsia de ver os presentes que o Menino Jesus trazia não nos deixava dormir e obrigava-nos a madrugar para espreitar sa prendas no sapatinho. Quantas vezes, até já tínhamos descoberto os presentes escondidos num dos guarda-fatos, mas era sempre uma alegria. Aquela alegria que só o Natal continua a dar às crianças. E porque o calor apertava à hora do almoço de Natal, comia-se na mesa do quintal, à sombra fresca da grande mandioqueira. Uns anos, lá em casa, criava-se um peru que era servido recheado. Outros anos, os meus pais davam preferência ao cabrito criado e oferecido pela comadre Formidável, (os meus pais eram padrinhos da filha mais velha), e que os criava na sua casa da Samba. Claro que era cabrito, se ele, entretanto, não fosse devolvido pela braveza que resultava do toureio que o meu irmão J. resolvia fazer-lhe. Seja nos trópicos, seja setentrional, o Natal dos tempos de hoje está desvirtuado pelo consumismo que nos contagia e mesmo que sejamos contra este sistema de vivência da época natalícia, acabamos por embarcar nas armadilhas do marketing publicitário que está muito bem apontado para o alvo que melhor responde à publicidade e que tão bem sabe amolecer a nossa vontade: as crianças.

publicado por momento do café às 00:29

14
Jun 09

Resolvi dar uma novo visual ao meu blog com a ajuda dos “entendidos” do assunto,  aqui em casa. A par das lides domésticas e ser dia do jantar em família, pois ao sábado quando há mais possibilidade de nos juntarmos todos com a alegria e a vivacidade do João e do Tiago sempre presentes, foram-se fazendo as modificações e aqui está o novo look. Faz lembrar mais as tonalidades da bebida que me lembra África e do cafezal com os grãos vermelhos prontos a serem colhidos e levados para a secagem, no terreiro, sob o sol quente dos trópicos.

publicado por momento do café às 11:34

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