Breve momento de pausa para quebrar a rotina...

Autoria de textos e imagens do blog é de momento do café


21
Jul 11

O tempo não conseguiu apagar as imagens de África. A lembrança dos cheiros e das cores continuam presentes nessas imagens que a memória retém. Do cheiro a peixe no velho saco de mateba do velho pescador, o Miguel, tez negra, carapinha e barba brancas, vestido com panos às riscas coloridas, pés descalços "pelas barrocas" que o traziam da praia, a quem a mãe comprava o peixe acabado de pescar no mar, ali tão perto. Do tom vermelho daquelas barrocas que calcorreávamos em liberdade, ao calor do sol abrasador, para irmos tomar um banho ao mar, sob o olhar atento da mãe que nos vigiava discretamente lá de cima, da varanda de casa. Do morro da Samba que avistávamos lá de casa. Da sua encosta virada ao mar, a mais íngreme, que parecia querer projetar-se sobre a estrada junto à praia. Daquele extenso morro vermelho, das ossadas humanas que encontrávamos por lá!... Ouvia-se dizer que eram de soldados do tempo da Guerra Mundial. E qual delas? E seriam? Subíamo-lo, numa lufada, pelas barrocas que ficavam voltadas para a nossa casa, manhã cedo, em tempo das férias escolares dos irmãos mais velhos, farnel farto para todo o dia, a velha tenda de campanha às costas do mano responsável, o Mocho. Já no cimo, tenda armada, abancávamo-nos à sombra dela e comíamos o farnel para, à hora do almoço, sob o olhar incrédulo da mãe, nos prantarmos de volta a casa... para almoçar!

publicado por momento do café às 12:36
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20
Jul 11

publicado por momento do café às 17:09
sinto-me:

19
Jul 11

O regresso a África nunca mais aconteceu. Ficaram as imagens dos tempos lá vividos. Do cheiro da terra molhada quando caíam as primeiras chuvadas. Sempre fortes. Do espetáculo da trovoada que se abatia sobre o mar e se desfrutava da varanda de casa. Dos relâmpagos que se espelhavam no mar, iluminavam a noite escura e imprimiam um forte risco de luz que dilacerava o céu negro.  Do miradouro, ao fundo da rua, onde ao fim do dia se contemplava o pôr-do-sol. Daquela linha onde os azuis do céu e do mar se tocavam e os matizes de vermelho e laranja, incandescentes, espalhavam toda a beleza do sol escaldante que se escondia para dar lugar ao silêncio da noite que só era quebrado pelos sons ritmados de uma qualquer batucada em pleno mar, frente à varanda, lá ao longe, na ilha dos Pescadores.

publicado por momento do café às 12:44
sinto-me:

12
Jul 11

Com as luzes de sinalização noturna apagadas e as cortinas das janelas corridas, por segurança, porque o tiroteio sem fim se sentia e com mais de 24 horas de espera e de angústia no aeroporto, o avião levantava voo, na noite escura. Aquela partida causou uma mágoa que se foi desvanecendo. O tempo tudo cura, dizem. Reorganiza as emoções para que se recordem os acontecimentos com distanciamento, digo eu. Jamais se esquece tudo de bom e de mau que nos marca. Houve sonhos que não puderam ser cumpridos. Uns ficaram no passado... arrumados sem amargura, nem revolta. Inadequados ao novo cenário que se desenhava. Longe de África, a realidade passava a ser outra, bem diferente. O cenário mudava, a ação prosseguia e era preciso criar ânimo e tempo para novos sonhos. A vida tinha de continuar longe da terra que me viu nascer.

 

publicado por momento do café às 09:17
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05
Jul 11

África, tão longe e tão perto. Aqui tão perto, sempre presente na memória. E tão longe... na vontade de lá regressar. Aquele momento da partida forçada foi doloroso e perdura na memória. Não houve tempo para olhar uma última vez e dizer adeus. África ficava para trás. No aeroporto, ouvia-se o barulho assustador do grande tiroteio. Era noite. As  tracejantes riscavam o céu escuro. O medo sentia-se. Já fazia parte daqueles dias e tinha de se conviver com ele. Os confrontos por toda a cidade tornaram-se frequentes. Deixar África e partir, era uma questão de sobrevivência. E de liberdade.

publicado por momento do café às 11:12
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Boa Nova: Farol e mar

Do terraço vejo o mar...

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